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Editorial

Editorial da Revista Ciência & Luta de Classes da edição n°4

Ao contrário do que os mais otimistas, ou oportunistas, poderiam imaginar, a política keynesiana, a injeção de vultosos recursos nos grandes monopólios bancários e industriais e o “bom-moço” Obama não foram capazes de segurar as rédeas da crise, que continua cada vez mais devastadora nos Estados Unidos e no mundo. Os dados são da revista Fortune1, que criou um “medidor da crise” utilizando dados de sete indicadores diferentes da economia americana – habitação, emprego, estoques, empréstimos comerciais, empréstimos ao consumidor, renda familiar e expectativa das empresas – apontando que a recessão atingiu seu pior nível em 31 de julho de 2009. Os números são reveladores: em setembro de 2008, quando do estouro da crise – levando em conta uma escala na qual 100 pontos representam um estado de relativa normalidade – o marcador era de 64.14 pontos, já em julho de 2009, chegou a 11.78 pontos!

 

É cada vez mais evidente que as alardeadas notícias de “recuperação” são tentativas frustradas de “tapar o sol com a peneira”. As teorias econômicas burguesas não foram capazes de sobreviver ao derradeiro critério da verdade, a prática: o mercado não se auto-regulou gerando automaticamente a procura necessária e o Estado não foi capaz de suprir um suposto “hiato na demanda”, a crise veio inexoravelmente. O neoliberalismo violentou a classe operária e o keynesianismo não foi capaz de estancar suas feridas.

A indústria bélica norte-americana, sobre qual se assenta grande parte da economia do país, continua sangrando e pretende espalhar suas manchas por outras nações do globo: os olhos da “águia” voltam-se agora para a América Latina. Para garantir o sucesso destes planos, não foi o bastante promover a reativação da IV Frota, urgia que se instalassem bases terrestres para dar suporte a eventuais invasões e/ou ocupações. Assim foi feito: os americanos fecharam acordo com a Colômbia, do vassalo Álvaro Uribe, para estabelecer sete bases militares em solo colombiano.

Recentemente, por intermédio do presidente Obama, que vem cumprindo bem seu papel de gestor de negócios da burguesia, a Boeing entrou na disputa para vender trinta e seis aviões de combate para a Força Aérea Brasileira, pela bagatela de dez bilhões de dólares. Para vencer a disputa, ofereceu uma série de vantagens sem precedentes na história, como a transferência de tecnologia e o investimento desses mesmos dez bilhões no Brasil. Aparentemente, os americanos estão jogando todas as suas fichas em uma cartada dupla: realizar a mais-valia da grande indústria armamentista – apoderando-se de considerável parte da pouca liquidez que nos resta – e, ao mesmo tempo, aproximar-se diplomaticamente do governo Lula, com intuito de garantir, se não uma aliança, uma posição de neutralidade brasileira em eventual processo de ocupação/invasão das nossas vizinhanças. Em entrevista concedida ao “Jornal da Globo”2, Jim Albaugh, vendedor chefe de aviões militares e sistemas bélicos da Boeing, afirmou que a empresa sabe que o foco principal do reequipamento da Força Aérea Brasileira é político e que Obama “entendeu o que precisa ser feito”. Ainda segundo Albaugh, a “generosidade” do governo americano serve para que “o governo brasileiro perceba como pode se beneficiar de ter uma boa relação com os Estados Unidos”.

A figura do Estado como “gestor de negócios da burguesia” já não era novidade para Marx e nem muito menos para Lênin, que, em sua obra O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, afirmava: “A “união pessoal” dos bancos com a indústria completa-se com a “união pessoal” de umas e outras sociedades com o governo3. Aprofundando sua análise das relações promíscuas entre Estado e burguesia monopolista, Lênin conclui ainda que “... o monopólio de Estado na sociedade capitalista não é mais do que uma maneira de aumentar e assegurar os rendimentos dos milionários que correm o risco de falir num ou noutro ramo da indústria”.4 Portanto, afirmar que estamos prestes a entrar em uma nova fase distinta do Imperialismo, o “capitalismo monopolista de Estado”, demonstra falta de compreensão do fenômeno como um todo. O Imperialismo é o estágio em que o capitalismo entra em decomposição, podendo assumir formas táticas distintas para tentar prolongar sua sobrevida, quais sejam: o monopólio privado e o de Estado.

Nesse contexto, as guerras imperialistas reaparecem como solução derradeira, mas já não surtem o mesmo efeito de antes. A última invasão ao Iraque gerou um rombo na economia norte-americana estimado em cerca de seis trilhões de dólares.5 A sede da indústria militar estadunidense, que não pode nunca ser saciada, agora começa a ser mais uma fonte de ruína do que de recuperação: impulsionar a roda da história para trás custa muito caro, as forças produtivas postas em marcha pelo sistema capitalista já não podem mais ser contidas pelo seu débil invólucro.

Como se já não bastassem as contradições internas, a crise estrutural do capitalismo ganha contornos mais dramáticos com a perspectiva do esgotamento dos recursos naturais do planeta. Não há risco somente de que venham a se exaurir o petróleo, principal força motriz da indústria, e a água potável, o risco está também no esgotamento das matérias-primas. Recentes pesquisas – United States Geological Survey, Lithium Supply Markets 2009 e Universidade de Yale – indicam que, se a previsão do consumo para a próxima década for concretizada, as reservas de chumbo no planeta devem se esgotar em cerca de oito anos, as de prata em nove, as de ouro em trinta e seis, as de urânio e cobre em vinte, de níquel em cinquenta e sete e de lítio em quarenta e seis.

Ao apresentar esses dados, não pretendemos projetar que, para a sobrevivência da humanidade, seja necessária uma “aliança entre classes”, ou que a Terra “chegou ao seu limite”, muito pelo contrário: apontamos para a incapacidade estrutural do modelo capitalista em resolver a crise ambiental. Nos Estados Unidos, por exemplo, os principais monopólios – que são também os principais monopólios do planeta – se recusaram a investir em novas tecnologias que pudessem substituir o combustível fóssil (carvão, petróleo, etc.), para não por em risco a lucratividade de seus negócios.

Voltamos à velha equação: enquanto as forças produtivas de caráter coletivo despertadas no seio da sociedade capitalista demandam fontes de energia cada vez mais complexas, a sistemática de apropriação privada dos seus produtos acaba por negá-las. Exemplificando com o tema já abordado no parágrafo anterior: a recusa dos monopólios em investir em novas tecnologias deve-se ao fato de que para mudar a matriz energética atual, o que se revela urgente, seriam necessários investimentos “inviáveis” para os padrões da economia capitalista, uma vez que o aumento suntuoso da composição orgânica do capital – parte da máquina na mercadoria – representaria decréscimo brutal na taxa de mais valia e, consequentemente, mais crises. O capitalismo deixou de ser o “fator do progresso”, para se transformar em entrave ao avanço tecnológico da humanidade.

Deste modo, não nos resta outra alternativa a não ser reafirmar o caráter estrutural e profundo da atual crise, além de enfatizar a vital importância do resgate da ciência da classe operária: o marxismo-leninismo. As “previsões” realizadas da revista Ciência & Luta de Classes nº 3 quanto à gravidade da situação, quanto ao fim da hegemonia norte-americana e à ascensão do Estado chinês, bem como do aumento à repressão da classe operária nos países do Terceiro Mundo, e o consequente aumento da resistência desta última, não foram obras do acaso, nem muito menos afortunados exercícios de “futurologia”, mas sim frutos de aprofundados estudos da nossa ciência.

Ante a atual conjuntura, que está prestes a transbordar mudanças qualitativas, nosso eixo-temático continua girando em torno da crise e seus desdobramentos, sem deixar de lado as consequências das políticas neoliberais na educação e no nosso modelo de produção tecnológica. Assim, apresentamos agora a coleção de artigos desta edição:

Um Cenário Para o Brasil em 2009” de Aluísio Bevilaqua, publicado originalmente na edição 433 do jornal Inverta, analisa o resultado das eleições municipais de 2008, os reflexos da crise capitalista e as perspectivas da luta de classes no Brasil. O autor destaca a derrota da oposição eleitoral, tanto de direita como de esquerda, ao governo Lula. Conclui enfatizando a necessidade de uma saída revolucionária capaz de promover uma verdadeira ruptura social com o sistema capitalista.

O artigo “Doze Dias que Abalaram o Brasil”, de Neimar Oliveira, resgata o histórico e heróico exemplo do vitorioso levante contra a tentativa de golpe em 1961, conhecido como Rede da Legalidade, que teve à frente o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola. O autor destaca a participação popular, a formação de milícias de mesma natureza, o apoio do III Exército e a frustração com o acordo que permitiu a posse do vice-presidente João Goulart condicionada à aceitação do parlamentarismo.

Aparecida Tiradentes discute a situação do trabalho docente nas Instituições de Educação Superior privadas no contexto da reestruturação do setor no seu artigo com o instigante título “Em Breve: “Universidade Micro-ondas””. Examina, assim, o processo de mercantilização da educação, a ressiginificação das relações pedagógicas (sujeito/sujeito e sujeito/conhecimento), seus efeitos sobre a qualidade da formação humana desenvolvida nestas instituições e sobre a identidade profissional do docente, a partir da análise dos seguintes elementos infra e superestruturais: neoliberalismo, reestruturação do capital, mudanças de paradigmas no mundo do trabalho, “crise” de paradigmas do conhecimento e as ações orgânicas empreendidas pelo capital e pelo trabalho neste setor.

Os camaradas do Instituto Karl Marx contribuem para esta edição com o artigo “Crise Econômica e Social: Característica Intrínseca do Capitalismo”. O texto reafirma o fato de que as crises do capital são inerentes ao sistema e não eventuais, além de traçar um histórico das mesmas. Keynes é duramente criticado tanto por ignorar as classes sociais em sua análise como por explicar a crise através de um suposto “hiato na demanda de mercadorias”, ignorando também o problema da composição orgânica do capital.

Rafael Rocha aborda a contemporânea, e polêmica, questão do Software-Livre em seu artigo “Apontamentos para um Estudo da Produção de Software e a Perspectiva do Software Livre como Embrião de uma Produção Socialista”. De discurso libertário e inserido à esquerda no debate acerca dos direitos de propriedade intelectual, o chamado Movimento do Software-Livre apresenta, no entanto, ainda uma série de limitações, ao manter-se atrelado a uma concepção de liberdade puramente técnica e afastada das condições materiais da realidade. Neste sentido, o autor aponta a necessidade indispensável de proceder-se a uma análise da questão sob o ponto de vista do materialismo histórico e dialético, colocando a conjugação da luta pelo Software-Livre à luta contra o modo de produção capitalista como condição fundamental de imprimir-lhe um caráter realmente progressista e libertário.

O artigo “O Combate em torno das Versões de um Episódio da II Guerra Mundial” levanta questões sobre o retorno da versão nazi-fascista do massacre de Katyn, na Polônia. Por que os princípios básicos de estabelecimento de verdades históricas estão sendo abandonados em nome da construção de uma versão que colabore com o esforço dos nazistas de se recuperarem da derrota de Stalingrado? Após a queda do muro de Berlim e o fim do bloco socialista do Leste Europeu, a história começa a ser reescrita pelos “vencedores”. O ponto de partida para a análise é o filme do cineasta polonês Andrzej Wajda.

Fechamos a edição com um presente para o leitor: uma entrevista com um dos “monstros sagrados” da história do movimento comunista brasileiro e mundial, além de coidealizador da importantíssima “Teoria da Dependência”, ninguém menos que Theotônio dos Santos. Em uma brilhante conversa de quase quatro horas, Theotônio agraciou a nós, seus entrevistadores, com um magistral histórico de sua vida e, paralelamente, do movimento revolucionário no Brasil, com muita erudição e simplicidade, ressaltando sempre a importância da formação de quadros, ideal maior do CEPPES.

 

Todo apoio aos movimentos de resistência à opressão ante a crise mundial: os trabalhadores não pagarão pela orgia do capital!

 

Viva a revolução socialista mundial!

 

Mais do que nunca, a história nos demonstra: socialismo ou barbárie!


 

3 V. I. LÊNIN, O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, V.I.Lénine Obras Escolhidas – tomo 1, Lisboa, Editora Avante!, 1977, p. 606.

4 Ibid p. 604.

5 Joseph STIGLITZ apud Aluísio BEVILAQUA, A crise do capital e o fim da hegmemonia mundial dos EUA, Ciência & Luta de Classes, Rio de Janeiro, 3 (3), dez. 2008, p.9.

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