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Você está aqui: Página Inicial / Revista / Versão impressa / Número 3 - Dezembro/Junho de 2009 / A Crise do Capital e o Pensamento Latino-Americano

A Crise do Capital e o Pensamento Latino-Americano

Resumo O artigo aborda o pensamento político na América Latina e suas implicações ideológicas, destacando sua contribuição original e revolucionária e a crítica às correntes conservadoras.

Haroldo Teixeira de Moura

Sociólogo e Professor

 

A atual correlação de forças, no desenvolvimento do modo de produção capitalista, na luta de classes entre os capitalistas burgueses, tendo a oligarquia financeira como fração dominante, e o proletariado urbano e rural como classes sociais decisivas das lutas desenvolvidas na sociedade em seu estágio atual, estabelece uma luta de classes, ora surda e encoberta, ora aberta, alcançando as amplas massas. A fase atual do modo de produção capitalista é imperialista e com isso os monopólios financeiros dominam a produção econômica, onde as empresas dominam os Estados, e estes, como gerentes da propriedade privada e monopolizada, exportam capitais a juros altos, dominam as reservas de biodiversidade, de minerais, e transferem subsidiárias de suas empresas monopolizadas. E com a atual política econômica do imperialismo, o neoliberalismo, a produção capitalista retornou ao processo de crises agudas, cíclicas e estruturais, atingindo todo planeta, criando as tendências e contra-tendências do sistema.

A primeira das grandes crises capitalistas teve seu apogeu em 1929, com o epicentro da crise ocorrendo nos Estados Unidos da América (EUA), o que gerou duas guerras mundiais, o surgimento do Estado nazi-fascista (tendo como principais expressões o nazismo alemão e o fascismo italiano), que atingiu a sociedade capitalista como um todo.

Além disso, as grandes contra-tendências levaram ao surgimento do modo de produção comunista moderno em sua fase inicial: o sistema socialista, com a edificação da República Socialista Soviética, na Rússia, em 1917, abrindo caminho a que um novo modo de produção fosse difundido no mundo, extinguindo com a exploração do homem pelo homem, passando a desenvolver-se a propriedade coletiva, destruindo-se a propriedade privada dos meios de produção.

As teorias do comunismo moderno que têm em Karl Marx e Friedrich Engels seus fundadores, os quais no século XIX, lançaram um manifesto, na Inglaterra, representando o seu pensamento e de toda Liga dos Comunistas de então. Esta obra que se tornou clássica para todos os revolucionários comunistas vindo a influenciar todas as revoluções desde aquela época, até a revolução vitoriosa na Rússia, em 1917, sob a liderança de Vladimir Ilitch Lênin, que criou as bases para a organização do partido preparado para a revolução proletária, o partido de novo tipo. A partir da análise de K. Marx sobre o modo de produção capitalista, cujas fases de desenvolvimento, opõem as formas de riqueza dos capitalistas burgueses, por um lado, e a miséria crescente e os tormentos do trabalho a que são submetidos o proletariado e a classe operária, em particular, as leis fundamentais do sistema capitalista, desenvolvidas em sua principal obra: O Capital. Lênin ampliou estas análises com a obra, Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, onde acrescenta as críticas científicas de Marx ao modo de produção capitalista, o desenvolvimento do neocolonialismo, o volume crescente de capital parasitário na sociedade, e a fusão do capital bancário com industrial, criando-se os grandes monopólios.

As pseudociências do capitalismo imperialista criaram fontes inesgotáveis e incansáveis de negação do materialismo histórico e dialético, a ciência criada por Marx e Engels e complementada por Lênin e que só desta forma manteve a sua capacidade de ser denominada de ciência revolucionária, o marxismo-leninismo ou como o próprio Lênin denominou: marxismo militante.

A sociologia acompanhou as ideologias do Capital, procurando um papel menor para o marxismo-leninismo, ou sua completa negação como ciência. Desde o surgimento das primeiras obras de Marx e Engels, este combate no campo das ideias foi travado, primeiro com Hegel, depois com os neo-hegelianos, até os socialistas utópicos franceses; os combates de Lênin foram tão profundos quanto os dos fundadores do marxismo, combatiam as ideologias que se faziam passar por ciência, e as ideias anti-revolucionárias que se faziam passar por revolucionárias, tanto à direita quanto à esquerda.

 

Durante mais de setenta anos, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), representou o centro hegemônico do modo de produção socialista, e o trabalho internacionalista da URSS ampliou e desenvolveu o sistema e a correlação de forças mudou sua qualidade, fazendo que as lutas travadas pelas classes sociais transformassem em luta por dois mundos: um velho, viciado e explorador dos produtores da riqueza social, a classe operária e o proletariado, em geral; outro novo, solidário e criador da propriedade socializada, onde cada um contribui de acordo com sua capacidade e recebendo de acordo com seu trabalho, sendo esta, entretanto, a fase inicial do modo de produção comunista, que repartirá entre todos de acordo com as necessidades que cada um possua.

Com a débâcle dos países socialistas do Leste europeu e a desintegração da URSS, a bipolaridade internacional deixa de existir, e o mundo socialista que já se expandia por quatro continentes, além do crescimento da aplicação da teoria de Keynes, com a constituição do Estado do Bem-Estar Social, onde os partidos reformistas social-democratas contemporâneos faziam o papel de sustentação do capitalismo, através da intervenção na demanda efetiva e travavam as lutas sociais da classe operária por meio de amplos direitos sociais e trabalhistas, desenvolviam a política econômica do pleno emprego, evitando as crises cíclicas através da intervenção direta do Estado.

Ao mesmo tempo, as ideologias sociológicas do imperialismo, durante a vigência do mundo de bipolaridade entre os dois sistemas, procuravam afirmar a importância do mundo do capital, e sugerir o caráter autoritário e antilibertário do mundo socialista.

Estas teorias influenciaram, sobremaneira, o pensamento intelectual reformista brasileiro no período entre o Estado Novo e a Ditadura Militar, surgida em 1964 com o golpe sobre o povo trabalhador brasileiro, principalmente, a classe operária, desenvolvido pela ala reacionária das Forças Armadas nacionais e pela oligarquia financeira interna e externa.

Seria desnecessário lembrar que a noção de ideologia adotada pelo Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política, IBESP, entidade muito atuante na década de cinquenta, responsável pela incorporação ao nacionalismo de elementos do pensamento de esquerda; desenvolvendo, também, a visão do papel do intelectual, na visão reformista, no processo de transformação da sociedade, possuindo, assim, categorias de formação muito particulares, influenciada por um pensador de formação sociológica:

Karl Mannheim, que distinguia as ‘ideologias parciais’ das ‘ideologias totais’; a primeira seriam as representações coletivas próprias de grupos sociais colocados diferencialmente na estrutura social - classes sociais, basicamente - e a segunda, a visão de mundo mais geral, ou weltanschauung de uma época. O antagonismo das ideologias parciais não se resolveria na ideologia total, como o texto sobre ‘A Crise Brasileira’, de Helio Jaguaribe, um dos formadores e formuladores do IBESP, parece sugerir, já que elas se colocariam em planos diferentes.

A solução clássica de Lukács para a questão da verdade das ideologias, adotada mais tarde por Lucien Goldmann, é que existiria uma ideologia ‘verdadeira’, a da classe operária, que teria em suas mãos o futuro da história; e ideologias ‘falsas’, as ideologias conservadoras das classes dominantes. Mannheim, desprovido de uma visão apriorística do processo histórico propõe como saída a constituição de um grupo social acima das classes, a intelligentsia.”1

 

O que é nada mais nada menos do que um retorno à República de Platão, onde os representantes desta elite seriam os únicos a possuírem condições de se colocar além das ideologias parciais, e ter, assim, uma visão verdadeira do conjunto. É uma saída fora da luta de classes e privilegiando uma minoria social, os intelectuais, os escolhidos do sistema por serem “limpos, inteligentes e capazes”. Nosso intelectual substitui a revolução social pela sociedade de castas, onde a capacidade dos grupos sociais é determinada pela posição ocupada na sociedade: “O conhecimento obtido pela intelligentsia manheimiana não seria, entretanto, necessariamente ‘ideológico’”.2

A sociologia moderna, a serviço do imperialismo esquece de citar o autor deste artigo:

 

tende a reservar o termo ‘ideologia’ para se referir não a um conjunto qualquer de valores, preferências e percepções de determinado grupo social, mas a situações especiais em que estes valores, preferências e percepções se apresentam fortemente estruturados como uma visão de mundo integrada e coesa”.3

 

De outra forma, quando percebem sua posição nas lutas de classes e estabelecem sua organização subjetiva revolucionária:

 

As ideologias seriam, assim, somente um tipo extremo de ‘sistema de crenças’ políticas, que poderiam se apresentar com diversos graus de estruturação. A experiência histórica, em todo o mundo, mostra que, em geral, o nível de ideologização das sociedades é baixo, e só tende a se acentuar em momentos de grandes convulsões sociais que mobilizam populações inteiras ao redor de uns poucos líderes e algumas proposições muito gerais. Ao postular a necessidade da formulação de uma ideologia e sua difusão na sociedade como passo inicial para as transformações sociais que o país exigia, o IBESP atribuía aos intelectuais, formuladores desta ideologia, um papel muito mais importante do que o que Mannheim havia pretendido para sua ‘intelligentsia’. Havia, para isto, a condição implícita de que o processo político brasileiro passasse por uma fase altamente.revolucionária, o que era condição para o surgimento de uma ideologia como o IBESP pretendia, mas contrariava seu próprio projeto político, essencialmente reformista, e por isto mesmo pouco ideologizado. Esta é uma contradição que não seria percebida na época, mas que teria importantes conseqüências.”4

 

Porém o IBESP trouxe contribuições importantes ao processo político nacional, mais pela contribuição individual de seus integrantes do que por um programa definido a priori:

 

Havia certamente diferenças, algumas de ênfase, outras substantivas, como em relação à questão da socialização dos meios de produção, tese central do documento de Jaguaribe de 1953 (‘A Crise Brasileira’). As de Alberto Guerreiro Ramos (‘Padrão de Vida do Proletariado de São Paulo.’ no. 1; ‘O Problema do Negro na Sociologia Brasileira,’ no. 2; ‘A Ideologia da Jeunesse Dorée,’ no. 4; ‘O Inconsciente Sociológico’; no. 5) tampouco se integraram de forma clara ao que ficou mais tarde conhecido como o pensamento isebiano; finalmente, a grande preocupação do IBESP com temas relativos à política internacional (que levou, inclusive, à publicação de extensa documentação sobre a Conferência de Berlim de 1954, ocupando a maior parte do número 3) parece responder ao clima particularmente agudo da guerra fria no início da década de 50, não permanecendo no tempo a não ser no esforço de aproximação com os novos países africanos, e uma idéia de uma política externa independente que não deixaria de produzir seus frutos. O que dá ao IBESP sua característica inovadora na história do pensamento político brasileiro é que, pela primeira vez, um grupo intelectual se propõe a assumir uma liderança política nacional por seus próprios meios. Neste sentido, o IBESP é radicalmente novo. Ele se diferencia dos pensadores políticos do passado que acreditavam que seriam suas ideias, se corretamente aplicadas - fossem elas liberais, católicas ou conservadoras -, que iriam transformar a sociedade. E se diferencia, também, dos pensadores de influência marxista, que se alinhavam, física e intelectualmente, com um setor da sociedade que, acreditavam, viria um dia a liderá-la, ou seja, a classe operária. Para os primeiros, as ideias políticas fariam tudo; para os segundos, elas podiam pouco. Para o IBESP, eram os intelectuais, mais do que suas ideias ou partidos, que poderiam, um dia, tomar o destino do país em suas mãos.

Mas, afinal, que poderia fazer um grupo de intelectuais? Não existe, neste texto, uma visão clara a respeito do caminho que as elites intelectuais deveriam seguir para desenvolver seu projeto. Ele fala, simplesmente, da necessidade de promover a “circulação das elites”, e da “formação de um movimento social apoiado numa ideologia e orientado por uma programática, apto a suscitar confiança no futuro e anseio pela realização dos objetivos prefixados”.5

 

Porém, também tivemos influência das escolas sociológicas mais reacionárias como fonte de explicação das ações da Ditadura Militar e de seus chefes torturadores, que esmagaram parcela considerável da classe operária e o proletariado consciente, em geral, quanto de intelectuais, estudantes e até mesmo todo conjunto dos militares democráticos e ou revolucionários. A eminência parda do regime totalitário dos anos recentes foi Golbery do Couto e Silva, que se baseando na escola estrutural-funcionalista de Talcott Parsons, desenhou o mapa da exceção no Brasil, através de seu livro Geopolítica do Brasil. Parsons, por seu turno, juntou em sua teoria sociológica os principais representantes do conservadorismo social, principalmente Durkheim, que em suas teorias apostava na coerção social, como necessidade de uma sociedade equilibrada, harmônica e trajetória linear. Golbery acompanhou o sociólogo conservador estadunidense criador do funcionalismo estrutural, influenciado pelo processo de linhas de montagem fabris da primeira metade do século XX, chamadas de taylorismo e fordismo, além do inglês Herbert Spencer, que comparava as sociedades aos organismos vivos, e Emile Durkheim.

Os funcionalistas possuem uma visão totalizadora da sociedade, onde seus sistemas (estruturas) são interdependentes e preservam a sobrevivência do todo, não havendo hierarquias entre eles, porém, precisando da operação (funcionalidade) de todos como em uma linha de montagem fabril. Robert Merton completou o pensamento funcionalista demonstrando como se operariam a disfuncionalidade ou anomias dos sistemas, comprometendo a máquina fabril social. Parsons foi defensor das ações estadunidenses durante a guerra fria e do modo de viver dos EUA, além da defesa ferrenha do controle social sobre os grupos sociais através da moral burguesa, da ética capitalista, do sistema jurídico e do sistema penal.

Golbery acompanhou esta aberração sociológica porque para todos estes nomes citados a questão social sempre foi caso ou de arrependimento religioso, mas principalmente de polícia, ou da ação até encoberta do status quo.

Por outro lado, no processo de contra-tendência ao capitalismo em sua fase imperialista, importantes pensadores e lutadores sociais nos continentes asiático, africano e, em especial, para este artigo, na América Latina, desenvolveram movimentos, realizaram lutas de independência política para derrubarem a tendência de exploração do capital, subjugando não só o proletariado em seus países, mas também superexplorando as nações mais atrasadas em seu desenvolvimento ou transformando quase que continentes inteiros em colônias de povoamento e de exploração.

Diferentemente dos intelectuais brasileiros do IBESP que procuravam uma saída intermediária entre a burguesia (os capitalistas), principalmente a então burguesia nacional e o proletariado urbano e rural, isto porque criticavam o capitalismo (já na sua fase imperialista e tendo realizado duas guerras mundiais de rapina), da mesma forma não aceitavam o modelo socialista pelas mesmas críticas que lhe faziam os intelectuais do sistema capitalista ou os falsos representantes da classe operária europeia, os social-democratas amarelos, o trotskismo e as correntes anarquistas, estas já então em processo de decadência como força política mundial; desta maneira acabavam por ter inclinações a pensadores que estavam a serviço da ideologia capitalista. O outro caso sobre o pensamento brasileiro e suas ligações com os intelectuais estadunidenses já foi abordado neste artigo, serve apenas para ilustrar que até mesmo os representantes da radicalização de um sistema social precisam de ideologias que justifiquem suas ações mesmo que violentas e cruéis.

No entanto, na América Latina, em especial revolucionários e comandantes de lutas de libertação da colonização europeia e, ao final do século, os EUA, marcharam em todos os países, sendo Simón Bolívar e José Martí, em toda América Latina e Caribe, seus representantes mais dignos, pois, além de levantarem o continente no caminho da libertação, lutaram também por uma América Latina única e não dividida, presa menos fácil.

José Carlos Mariategui, intelectual e militante marxista-leninista, dirigente do Partido Comunista Peruano, é outro importante representante do pensamento revolucionário latino-americano. Através de seus ensaios, recuperou a história de luta dos povos andinos e a figura heroica de Tupac Amaru que resistiu à colonização espanhola até à morte, não se submetendo aos invasores, com isso, propôs sistematizar um caminho original para a revolução socialista em nossa região, que se orientasse e desenvolvesse pela formação histórico-social da América Latina.

Aos olhos dos povos da América Latina e Caribe, pouco a pouco, a influência dominante dos EUA vem declinando, e se hoje, com a desintegração da URSS, não existe mais um paradigma único para o caminho para o socialismo, o pensamento de esquerda, mesmo fazendo concessões e não procurando formas de transformação radical do modo de produção e de vida social, se reacende no resgate de seus heróis, como Sandino, na Nicarágua, Simón Bolívar, além de Tupac Amaru, na América do Sul, e José Martí, em Cuba Socialista.

A estes precisamos acrescentar todos os lutadores anticolonialistas e antiescravagistas que tingiram com seu sangue nossos países. Também os lutadores de nossa época, principalmente, os comunistas revolucionários, como Che Guevara, grande internacionalista que reconstituiu as bases do Partido Comunista Cubano e do Poder Socialista Cubano e difundiu a verdade histórica da revolução que deu origem aos meios informativos de Cuba, através da Operação Verdade, por meio de vários jornalistas e homens de letras, simpáticos à Revolução Cubana, sendo divulgado através do Granma Internacional e, principalmente, da agência de notícias Prensa Latina.

No Brasil, o nome de Luiz Carlos Prestes deve ser lembrado como exemplo para todos os comunistas revolucionários de todo mundo pela sua trajetória de vida e de lutas, e por sua Carta aos Comunistas, uma denúncia veemente das distorções dos princípios leninistas pela infiltração do liberalismo no interior do partido revolucionário marxista-leninista, além da traição pura e simples ao povo pobre e ao proletariado.

Merecem ser mencionados como pensadores originais brasileiros Manuel Bonfim e Euclides da Cunha. Euclides da Cunha, engenheiro de formação militar, e Manoel Bonfim, médico de formação que vem a afastar-se do exercício da profissão por grave enfermidade que o acomete, dedicando-se desde o início da República a obras ligadas ao sistema educacional, tiveram forte influência do positivismo de Auguste Comte. Além disso, o espírito das ciências deste tempo transpôs o evolucionismo e as teses de Charles Darwin, que este cientista naturalista aplicou no sentido de explicar as origens das espécies animais, para a determinação da evolução das sociedades humanas. Com isso se desenvolveu um ambiente de especulação científica ao nível sociológico, onde se desenvolviam explicações lógicas sobre o atraso econômico, social e político de determinadas regiões do mundo em relação ao desenvolvimento acentuado das regiões do capitalismo desenvolvido; da mesma forma o determinismo cientificista descrevia diferenças raciais, dividindo os homens em raças atrasadas e adiantadas ou desenvolvidas.

Além disso, o pensamento ideológico-político desta época apontava o Brasil como imerso no ambiente de progresso social e de avanço cultural. Diziam, inclusive, que as principais cidades brasileiras atravessavam um ambiente de “belle époque”, que o Rio de Janeiro, ainda como Distrito Federal, representou sobremaneira através das obras de modernização sob a prefeitura de Pereira Passos.

As posições com relação aos primeiros anos de existência da República nacional aproximam e afastam Euclides da Cunha e Manoel Bonfim; nesse momento, as duas correntes de intelectuais se desenvolveram como vozes destoantes deste clima de desenfreado otimismo, logo após a Proclamação da República. A intelectualidade internacional desenvolvera, por meio do evolucionismo e darwinismo social, as concepções monogenicistas e poligenicistas. A primeira admitia uma origem comum para o surgimento das civilizações que, no entanto, podem ter um desenvolvimento desigual, o que determinaria o avanço civilizatório maior de algumas formações econômico- políticas do que outras, porém, todas atravessando fases comuns a todas as sociedades; enquanto as outras admitem uma origem comum a todas as civilizações. No entanto, através de seus desenvolvimentos posteriores passavam por trajetórias diversificadas e diferenciadas.

O que se desenvolvia, na recém inaugurada república, era uma inegável vontade de copiar o continente europeu que, ainda representava, na virada do século XIX para o século XX, a hegemonia do capitalismo imperialista, a estrutura econômico-produtiva do país continuava dependente e subordinada ao centro imperialista e seu anseio de progresso e modernização, anseio este sistematizado pela intelectualidade brasileira, no interesse das oligarquias dominantes do país, principalmente, as oligarquias paulistas e mineiras.

Euclides e Bonfim são vozes dissonantes das mediações intelectuais de então e vão produzir pensamentos originais sobre a época, modificando as suas compreensões para o processo civilizatório, sonhado pelas oligarquias, já que pretendiam mais uma visão domesticada em relação ao imperialismo e facilitadora do domínio das classes exploradas, tendo o objetivo de dominá-las por um processo de fatalidade otimista.

Euclides da Cunha se choca com esta realidade medíocre, falsa e subalterna das oligarquias dominantes ao acompanhar a Campanha de Canudos. Sua contradição com o sistema se amplia ao ver as expedições destruírem, em nome do novo e moderno, o arraial de Canudos, no interior baiano, onde a população sertaneja desenvolveu uma comunidade agrária auto-sustentável e seu único crime, se podemos dizer assim, já que os homens segundo a “modernidade” são livres para fazer suas escolhas e definir suas preferências, foi o de não aceitarem o Estado Republicano Brasileiro.

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Fidel Castro comemora vitória do movimento
revolucionário em 1959 (EFE)

Euclides da Cunha desenvolve uma ácida crítica a este Estado que, incapaz de compreender a vida dos sertanejos que vivem em uma região muito quente e de água escassa, porém, mesmo assim desenvolvem uma comunidade social diante da omissão deste mesmo Estado. Entretanto, Euclides da Cunha fica a meio caminho na sua crítica. Divide-se entre a admiração ao seu povo lutador e quanto às teses de inferioridade de raças, de fraqueza congênita dos povos miscigenados, dito de outra forma, índios, negros e brancos se dividiam entre raças “fortes” e “fracas”. Como as teorias da época falsificavam as teses de Darwin sobre o evolucionismo que, se aplicava somente à evolução das espécies, a Europa dava aos seus povos brancos o prêmio de raça pura, o que acompanhará este continente até a eclosão da II Guerra Mundial.

Portanto, é na chama presente no estilo literário de Os Sertões e outros escritos de Euclides da Cunha, quanto à admiração, respeito e identidade com seu povo que se encontra a grande contribuição euclidiana. Apesar da Campanha Militar de Canudos ter-lhe marcado tão profundamente que veio a propor um programa de assistência às populações desassistidas que deveria ser executado pelo Estado. Como consequência, o povo brasileiro sairia da indigência, ignorância, da falta de saúde pública, da fome e da ausência de recursos a que já viviam nesta época.

A formação militar de Euclides, permeada por correntes filosóficas e científicas, como o positivismo de Augusto Comte, além das deturpadas teses do evolucionismo e darwinismo social, mantinha seu discurso crítico em constante marchas e contramarchas. Porque senão questionaria sua própria proposta, perguntando: como o Estado que esmaga e realiza uma carnificina, um genocídio de seu próprio povo, poderá cuidar dos interesses das classes exploradas dando-lhes o que nunca tiveram, dignidade, direitos e formação instrucional em todos os níveis? Assim, a crítica euclidiana à República estava mais no campo da perplexidade diante das ações das classes sociais que dominavam o Poder, principalmente as oligarquias rurais paulista e mineira, que relegaram o povo pobre brasileiro à sua própria sorte, porém, diante de qualquer ato de rebeldia as cabeças dos líderes, como a de Antonio Conselheiro, em Canudos, eram cortadas e expostas como troféus de vitória em locais públicos do Distrito Federal, o Rio de Janeiro, à época.

Manoel Bonfim amplia esta crítica e da simples perplexidade euclidiana chega à luta social pela revolução de classes no país como única e última solução para a libertação do povo pobre e proletário do jugo das classes dominantes. Estas proposições vão se clarificando de acordo com a produção de suas obras completas, que são escritas até o final da década dos anos vinte do século passado.

Bonfim, na primeira análise de suas obras, não conheceu as teses do marxismo porém, sua observação atenta das relações de dominação e subordinação entre as oligarquias e o povo pobre e proletário brasileiro faz com que negue o papel das classes dominantes e reafirme a necessidade do povo tomar o destino em suas mãos.

Afirma o parasitismo das oligarquias que se adaptando ao colonialismo europeu, o reafirmaram na condição de dirigentes do Estado Republicano que construíram.

Demonstra, da mesma forma, que este parasitismo sendo expressão de nosso passado colonial, levou a nação à independência política, porém, permanecendo presa à dependência econômica e social, obrigada a manter os mesmos laços anteriores com a exploração internacional de nossas riquezas. Portanto afirma que o país, conduzido por estas oligarquias parasitárias, nunca caminharia por um real processo de libertação da dependência externa, tanto no setor rural quanto industrial.

Em suas primeiras obras, como América Latina: Males de origem, propõe, assim como nas teses euclidianas, a ascensão do papel do Estado, deixando de ser apenas gerenciador e organizador da ordem social para tornar-se mais amplo, desenvolvendo um grande programa de Educação Pública, ampliação dos centros de formação de artesãos e profissionais qualificados, assistência pública e geral, programa de ligação do país através de extensa rede de comunicação e viária, para a transformação do país, dependente e subordinado ao capital externo, em uma nação independente em todos os níveis.

Manoel Bonfim afirmava que suas obras, apesar de sempre procurar o rigor da observação científica, recusava a obrigação de fazer ciência com neutralidade, o que estava tão em moda nos meios científicos. Ao contrário, afirmava a interferência de suas observações pessoais que não aceitam o rótulo de neutralidade, para Bonfim muitas vezes falso. Procurava, outrossim, interpretar e decidir sobre quais grupos sociais lhe podiam afiançar confiança para as transformações necessárias e prementes no país, e afirmando também que, muitas de suas críticas eram comuns a toda América Latina.

Pouco a pouco, se afasta da mesma forma do positivismo, criticando-o como sendo apenas uma pseudociência responsável pela ordem social através da coerção, e do evolucionismo e darwinismo social que, em nome de Darwin, seriam falsificações para justificar um mundo dividido entre raças inferiores e superiores, vindo a eximir aos europeus de suas atrocidades e vilanias realizadas durante a escravidão.

Definia o parasitismo social de forma diferente do parasitismo natural, no parasitismo natural todo organismo funciona porque outro ser vivo lhe dá viço; com relação à sociedade, esta possui uma parte que é dinâmica e movimenta toda vida social. Manoel Bonfim vê estes papeis nas classes dominadas e exploradas de seu país e, portanto, o parasitismo das oligarquias teria a sua contradição interna.

Seu pensamento evolui em suas últimas obras quando passa a afirmar ser necessário um programa político de ação (alcançando, portanto, a necessidade subjetiva da transformação) para a superação do Estado parasitário das oligarquias, na República Brasileira. Com isso, a perplexidade que é traço marcante no pensamento euclidiano, tem uma mudança revolucionária em Manoel Bonfim que, já em 1905, não via perspectivas otimistas para o Brasil, e até mesmo para a América Latina, com o domínio das oligarquias sobre as outras classes sociais, saindo da pura perplexidade ou da crítica do que é injusto, para a compreensão da necessidade da mudança social e de seus agentes no poder e a necessidade de um programa político para a revolução necessária.

Interessante contribuição destes autores foi, também, no sentido de cada vez mais, as teses do positivismo comtista e do darwinismo social, muito aplicadas em sua época, terem caído no desuso, e o imperialismo, atualmente, possuírem a pretensão de voltarem a vulgarizá-las como método de investigação.

Darcy Ribeiro também tendo como eixo central de suas teses a compreensão da América Latina e, principalmente, do povo brasileiro, procurou sempre explicações antropológicas originais, marcadamente nas tentativas que desenvolveu em seus estudos de Antropologia da Civilização. E o mais importante é que o traço de união entre todos esses intelectuais será sempre a vida militante que todos dedicaram aos povos de seus países. Mas, entre todos, a contribuição de Manoel Bonfim é a mais dinâmica e sua crítica ao sistema aproxima-se, sobremaneira, da crítica do marxismo-leninismo.

Ao encerrar este artigo é de muita importância lembrar que novos combates no campo das ideias, como dizem Fidel Castro, líder da Revolução Socialista Cubana, e Aluisio Bevilaqua, editor do Jornal INVERTA e intelectual militante marxista-leninista brasileiro; estão sendo preparados neste momento em que o centro hegemônico do sistema, os EUA, tornaram-se o epicentro da crise econômica do imperialismo que se apresenta da mesma forma como crise ambiental podendo afetar a possibilidade de vida em todo globo terrestre. Para usar uma metáfora, é como se tivesse apagado de chofre, a globalização neoliberal que o imperialismo acendeu, numa gambiarra, com múltiplas luzes coloridas.

Os trabalhos recentes de Aluisio Bevilaqua, a obra Crise na Ásia: O Tufão e a Muralha de Papel, de 1998, o artigo editado como editorial no Jornal INVERTA, nº 429, “A Crise do Capital e o Fim da Hegemonia Mundial dos EUA”, que será reeditado no número três de nossa revista Ciência e Luta de Classes, e a brochura produzida pelo núcleo do CEPPES do estado do Ceará, As Alterações Climáticas e Globalização Neoliberal são produções teóricas que demonstram o fracasso do imperialismo, através de sua política econômica, o neoliberalismo, de possibilitar a criação de um mundo do capital, sem a interferência do Estado na demanda efetiva, com o seu retorno à condição de Estado mínimo e, ao mesmo tempo, tornando-se mais resistente às crises cíclicas do sistema, estruturais, comprometendo o processo de realização da rotação do capital, criando a paralisação do desenvolvimento do capital produtivo, o crescimento do volume de capital fictício especulativo, que está associado a fraudes e golpes financeiros, fazendo com que o proletariado pague com a perda de seus postos de trabalho, a manutenção do bem-estar da classe social exploradora.

Em todos estes artigos científicos, o autor vem demolindo as argumentações dos especialistas do imperialismo que veem as crises, como passageiras ou de acomodação do sistema num estágio superior de produção, ou seja, sem crises.

O que temos visto é somente a concentração e centralização dos capitais produtivos em grupos cada vez menores da fração oligárquico-financeira. A fusão de capitais em monopólios cada vez mais gigantescos e a farra com o dinheiro da poupança popular, para grandes jogadas de instituições financeiras com capital fictício nas bolsas de valores de todo mundo, o aumento do contingente de exército industrial de reserva, fazendo cair o preço médio dos salários, e aumentando a capacidade instalada dos meios de produção paralisada, pelo aumento da massa de desempregados, o autor demonstrou, com base nas leis do marxismo-leninismo, como estas se desenvolvem na época atual.

Suas importantes análises são o início de respostas que precisamos dar a questões de nosso tempo e certamente se somarão ao esforço dos teóricos comunistas revolucionários da América Latina no caminho da transformação social radical nas estruturas ainda dependentes e subordinadas da maioria das formações econômico-sociais de nosso continente.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BEVILAQUA, Aluisio. Crise na Ásia: o Tufão e a Muralha de Papel. Rio de Janeiro: Cooperativa INVERTA Ltda, 1998.

• ________. As Alterações Climáticas e Globalização Neoliberal (uma análise marxista). Fortaleza: Cooperativa INVERTA Ltda, [2008].

• ________. Crise do Capital e o Fim da Hegemonia Mundial dos EUA. Jornal INVERTA, nº: 429, 24/10 a 09/11/2008, pp. 1-A – 4-A. Cooperativa INVERTA Ltda, 2008.

• FLOREZANO, Zola. O Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels: comentado. Rio de Janeiro: Cooperativa INVERTA Ltda, 1998.

• KROPF, Simone Petraglia. Manoel Bonfim e Euclides da Cunha: Vozes Dissonantes aos Horizontes do Progresso. História, Ciências, Saúde. Rio de Janeiro, III (1): 80-98, mar.-jun. 1996.

• LÊNIN, Vladimir Ilich. Sobre o Significado do Materialismo Militante. In Obras Escolhidas. Moscou: Editora Progresso, 1922.

• RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. Estudos de Antropologia da Civilização. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1995.

• SCHWARTZMAN, Simon. O Pensamento Nacionalista e os “Cadernos de Nosso Tempo”. Brasília, Câmara dos Deputados, Biblioteca do Pensamento Brasileiro, Biblioteca do Pensamento Político Republicano, volume 6, 1981.

 

1 Simon SCHWARTZMAN, O Pensamento Nacionalista e os “Cadernos de Nosso Tempo”, Brasília, Câmara dos Deputados, Biblioteca do Pensamento Brasileiro, Biblioteca do Pensamento Político Republicano, volume 6, 1981.

2 Ibid., passim.

3 Ibid., passim.

 

4 Ibid., passim.

5 Ibid., passim.

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